sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Médicos exigem aumento salarial na ordem dos 1.700 euros

Diário Económico, Denise Fernandes
21/01/10
As negociações entre os sindicatos dos médicos e o Ministério da Saúde para a conclusão do acordo colectivo de trabalho arrancaram terça-feira ao final do dia, com a ministra a insistir no alargamento do horário dos médicos das 35 para as 40 horas semanais. Os dirigentes sindicais estão dispostos a negociar este ponto mas querem esperar para ver primeiro a nova tabela salarial que está a ser ultimada pela ministra Ana Jorge. Os médicos exigem salários idênticos aos dos juízes e dos professores universitários.

Na prática, isso significaria uma subida salarial para os médicos em início de carreira da ordem dos 1.700 euros. É que, comparando as tabelas salariais dos médicos e dos professores universitários referentes a 2009, verifica-se que, enquanto um médico especialista a trabalhar no Estado (assistente) em início de carreira ganha 1.854 euros brutos, um professor universitário na mesma situação (professor associado sem agregação) recebe 3.601 euros, indica o sindicato.

A nova tabela salarial dos médicos ainda está a ser ultimada pelo Ministério da Saúde e, segundo Paulo Simões, do Sindicato dos Médicos Independentes (SIM), a ministra Ana Jorge garantiu, na reunião de terça-feira, que estaria pronta para discussão no final do mês.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ensino. Portugal está no mesmo ponto de partida de há 50 anos

Em cinco décadas, o número de crianças no pré-escolar cresceu 40 vezes, a taxa de escolaridade no ensino secundário escalou de 1,3% para 60% e o acesso das raparigas ao ensino subiu 15%. Este é o retrato do ensino português publicado nos "50 Anos de Estatísticas da Educação", que ontem o Instituto Nacional de Estatísticas (INE) divulgou. Os dados mostram que o país deu um salto gigante entre 1960 e 2008 mas, para os especialistas, essa evolução significa que Portugal está exactamente no mesmo ponto de partida de há 50 anos. "Fartámos de correr, mas não conseguimos ainda apanhar o pelotão da frente", avisa o sociólogo do Instituto de Ciências Sociais Manuel Villaverde Cabral.

O crescimento numérico é inegável, mas os dados estatísticos não traduzem uma recuperação de Portugal face aos outros países desenvolvidos, esclarecem os investigadores. "Houve uma massificação do acesso ao ensino, mas a qualidade não acompanhou essa evolução", defende o professor universitário Santana Castilho. A única conclusão a retirar da publicação do INE é que, há 50 anos, os portugueses viviam na idade das trevas. "O que me salta aos olhos é que o sistema educativo antes do 25 de Abril era realmente mau, porque 99% da população estava excluída da escola", desabafa Paulo Feytor Pinto, presidente da Associação de Professores de Português.

O ensino secundário é para Manuel Villaverde Cabral o exemplo mais flagrante do atraso português. "Nos Estados Unidos, a taxa de escolaridade até ao 12º ano era de 100% ainda antes da Segunda Guerra Mundial; em Portugal o ensino obrigatório até aos 18 anos só acontecerá a partir de 2013." De acordo com o INE, só 60% dos portugueses completaram o ensino secundário; a mesma percentagem de norte-americanos tem habilitações superiores. "Os países escandinavos, por exemplo, conseguiram recuperar o atraso face aos EUA e, na década de 60, 100% da população já estava escolarizada ao nível do secundário", conta o sociólogo e autor do estudo "Sucesso e Insucesso - Escola, Economia e Sociedade".

Todos os países desenvolvidos como França, Alemanha ou Espanha conseguiram taxas plenas de sucesso no ensino secundário, recorda o investigador do Instituto de Ciências Sociais, mas "em Portugal, 30 a 40% da população não consegue ir além do 9º ano". O sistema exclui sobretudo os que mais precisam: "O insucesso escolar acontece principalmente no interior do País e nas periferias de Lisboa e Porto." Duplicar ou até triplicar o investimento na educação poderá ser uma solução para apanhar o comboio da modernidade, propõe Villaverde Cabral que está convencido de que o atraso no sistema educacional "muito se deve" às elites governamentais que tomaram opções erradas e contribuíram para um modelo de ensino "ineficiente e dispendioso".

Aposta tardia Para Paulo Feytor Pinto, o nível com maiores lacunas continua a ser o pré-escolar, com uma escolarização de 77,7%. "Foi uma aposta tardia do país, que só começou com o primeiro governo António Guterres. Fez-se muito e ainda há muito a fazer, pois é nessa idade que se decide muita coisa, para o bem e para o mal." Critica ainda o facto de, mais uma vez , as estatísticas não distinguirem o abandono escolar de retenções. "A retenção é administrativa, o importante seria perceber que alunos saem da escola antes do tempo. Não conseguimos perceber se há uma melhoria ou não - faz-se o diagnóstico, mas não se traça a evolução." A diferença verificada entre a taxa de escolarização aos 15 anos (99,7% em 2006/07) e a taxa de escolarização para o secundário (60% no mesmo ano lectivo) representa outra preocupação. "Eu e outros colegas temos cada vez mais a sensação de que o abandono e a desmotivação começa sobretudo a partir 11º ano."

Na hora de traçar caminhos para o futuro, as ideias focam-se na disciplina de língua portuguesa. "Precisamos de mais horas lectivas. Temos hoje três horas (quatro tempos de 45 minutos) para a língua materna, quando na generalidade dos países são seis, sete ou oito. Portugal é o caso excepcional." Outro passo importante seria reconhecer uma "componente experimental ao português", como acontece nas disciplinas científicas. "Permite o desdobramento das turmas, o que seria útil por exemplo para aprender a escrever com o professor ao lado. Não é com trabalhos de casa que se consegue essa aprendizagem."

Esforço notável Santana Castilho admite que "o esforço do país na escolarização é notável, sobretudo nos últimos 30 anos". Porém, considera que os números não podem ser lidos como um retrato fidedigno da educação em Portugal. Para o professor universitário, "números são números" e apenas transmitem "a quantidade, nunca a qualidade". "Políticas de educação feitas para as estatísticas" e o "decréscimo da exigência do ensino para combater o abandono escolar" estão na mira de ataque do analista em educação. Se existem hoje 27 vezes mais alunos matriculados no ensino secundário do que na década de 60, Santana Castilho realça ser preciso fazer uma leitura dos dados de acordo com as mudanças recentes naquele grau de ensino, como o aumento do número de cursos profissionais. "No mandato de Maria de Lurdes Rodrigues, 20 mil alunos matricularam-se no ensino profissional. O preço de termos menos jovens a abandonarem a escola é que até se criaram cursos de treinador de futebol que dão equivalência ao 12º ano."

Somando número de alunos e número de docentes nas escolas portuguesas no ano lectivo 2006/2007, a publicação do INE mostra que existe hoje uma média de 9,75 alunos por cada professor. Esse número, para Santana Castilho, está "completamente desvirtuado" da realidade. "Basta percorrer meia dúzia de escolas para concluirmos que uma turma tem quase sempre muito mais de dez alunos. É preciso ter em conta que os professores do ensino especial ou a desempenhar tarefas administrativas também entram nesse cômputo, e que duas mil escolas - onde a relação professor/aluno era muito baixa - já fecharam."



Conheça todos os ministros da educação:



MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO NACIONAL

• FRANCISCO DE PAULA LEITE PINTO
7 de Julho de 1955 a 4 de Maio de 1961

• MANUEL LOPES DE ALMEIDA
4 de Maio de 1961 a 4 de Dezembro de 1962

• INOCÊNCIO GALVÃO TELES
4 de Dezembro de 1962 a 19 de Agosto de 1968

• JOSÉ HERMANO SARAIVA
19 de Agosto de 1968 a 15 de Janeiro de 1970

• JOSÉ VEIGA SIMÃO
15 de Janeiro de 1970 a 25 de Abril de 1974



MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA

• EDUARDO HENRIQUE DA SILVA CORREIA
16 de Maio de 1974 a 18 de Julho de 1974

• VITORINO MAGALHÃES GODINHO
18 de Julho de 1974 a 30 de Setembro de 1974

• VITORINO MAGALHÃES GODINHO
30 de Setembro de 1974 a 29 de Novembro de 1974

• VASCO DOS SANTOS GONÇALVES (interino)
29 de Novembro de 1974 a 4 de Dezembro de 1974

• RUI DOS SANTOS GRÁCIO (por delegação de competências)
29 de Novembro de 1974 a 4 de Dezembro de 1974

• MANUEL RODRIGUES DE CARVALHO
4 de Dezembro de 1974 a 26 de Março de 1975

• JOSÉ EMÍLIO DA SILVA
26 de Março de 1975 a 10 de Setembro de 1975


MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA

• VITOR MANUEL RODRIGUES ALVES
19 de Setembro de 1975 a 23 de Julho de 1976

• MÁRIO AUGUSTO SOTTOMAYOR LEAL CARDIA
23 de Julho de 1976 a 23 de Janeiro de 1978

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA

• LUÍS FRANCISCO VALENTE DE OLIVEIRA
22 de Novembro de 1978 a 7 de Julho de 1979


MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

• LUÍS EUGÉNIO CALDAS VEIGA DA CUNHA
7 de Julho de 1979 a 3 de Janeiro de 1980

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CIÊNCIA

• VITOR PEREIRA CRESPO
3 de Janeiro de 1980 a 9 de Janeiro de 1981

• VITOR PEREIRA CRESPO
9 de Janeiro de 1981 a 4 de Setembro de 1981


MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DAS UNIVERSIDADES

• VITOR PEREIRA CRESPO
4 de Setembro de 1981 a 12 de Junho de 1982


MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

• JOÃO JOSÉ RODILLES FRAÚSTO DA SILVA
12 de Junho de 1982 a 9 de Junho de 1983

• JOSÉ AUGUSTO SEABRA
9 de Junho de 1983 a 15 de Fevereiro de 1985

• JOÃO DE DEUS ROGADO SALVADOR PINHEIRO
15 de Fevereiro de 1985 a 12 de Julho de 1985



MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA

• JOÃO DE DEUS ROGADO SALVADOR PINHEIRO
6 de Novembro de 1985 a 17 de Agosto de 1987


MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

• ROBERTO ARTUR DA LUZ CARNEIRO
17 de Agosto de 1987 a 31 de Outubro de 1991

• DIAMANTINO FREITAS GOMES DURÃO
31 de Outubro de 1991 a 19 de Março de 1992

• ANTÓNIO FERNANDO COUTO DOS SANTOS
19 de Março de 1992 a 7 de Dezembro de 1993

• MARIA MANUELA DIAS FERREIRA LEITE
7 de Dezembro de 1993 a 28 de Outubro de 1995

• EDUARDO CARREGA MARÇAL GRILO
28 de Outubro de 1995 a 25 de Outubro de 1999

• GUILHERME PEREIRA D'OLIVEIRA MARTINS
25 de Outubro de 1999 a 14 de Setembro de 2000

• AUGUSTO ERNESTO SANTOS SILVA
14 de Setembro de 2000 a 3 de Julho de 2001

• JÚLIO DOMINGOS PEDROSA DA LUZ DE JESUS
3 de Julho de 2001 a 6 de Abril de 2002

• JOSÉ DAVID GOMES JUSTINO
6 de Abril de 2002 a 17 de Julho de 2004

• MARIA DO CARMO FÉLIX DA COSTA SEABRA
17 de Julho de 2004 a 12 de Março de 2005

• MARIA DE LURDES REIS RODRIGUES
Desde 12 de Março de 2005 a 26 de Outubro de 2009

• ISABEL ALÇADA (actual)

I Informação; por Kátia Catulo, Publicado em 21 de Janeiro de 2010


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O elogio das loucuras... à portuguesa, só podia

Cavaco explica distinção a Santana

Presidente da República disse estar a cumprir "um acto de justiça" por "dever e tradição"
ANA PAULA CORREIA
“Cavaco Silva justificou-se e Santana Lopes agradeceu. Foi assim, ontem, terça-feira, no Palácio de Belém, na breve cerimónia de atribuição da Grã-Cruz da Ordem de Cristo ao antigo primeiro-ministro, a que assistiram membros do seu Governo, além da líder social-democrata.

Além de Santana Lopes, foram agraciados com a Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique o antigo presidente do Supremo Tribunal Administrativo, Santos Serra, e os antigos presidentes da Assembleia Legislativa Regional dos Açores, Madruga da Costa e Manuel Menezes. Todos já afastados de cargos políticos. Foi essa a circunstância que esteve na base da explicação dada pelo presidente para atribuir as condecorações, "por dever e tradição". Santana era o único ex-primeiro-ministro que ainda não tinha sido condecorado.

"Cumpre a regra que sempre foi seguida de atribuir as condecorações depois de terminado o exercício das funções de que foram titulares e quando já não exercem quaisquer funções políticas de destaque, como as de deputado ou dirigente partidário". Santana só deixou de ser deputado em Outubro passado.

Antes, Cavaco Silva disse estar a cumprir " um acto de justiça em relação a portugueses que serviram o país nos mais altos cargos".
No agradecimento, o homem que chefiou o Governo apenas seis meses não esqueceu quem o acompanhou nessa experiência.
"Queria expressar o meu sentimento de partilha desta distinção com aqueles que serviram comigo no Governo". E, perante os seus ex-ministros, como Paulo Portas, Bagão Félix, Aguiar-Branco, Gomes da Silva ou António Mexia, fez questão de lembrar, "como se diz no juramento de posse", o cumprimento "com lealdade das funções que nos foram confiadas".

E não faltou a nota pessoal: "É uma honra receber esta distinção das mãos de Vossa Excelência".
in Jornal de Noticias, 20 de Janeiro de 2010

Qual é o melhor país do mundo para os reformados?

O Equador é o melhor país do mundo para gozar a reforma. Conheça os outros países onde pode viver uma reforma tranquila.

A revista ‘Internacional Living' construiu um índice que analisa um conjunto de parâmetros essenciais para garantir o bem-estar na terceira idade.

Entre os factores analisados estão os preços das casas, os benefícios dados aos aposentados, a oferta cultural, o nível de cuidados de saúde prestados, o clima e as infra-estruturas.

O índice de 2009 teve em conta um ‘ranking' de 29 países. O Equador, o México e o Panamá foram os países que ocuparam os lugares cimeiros da tabela.

A revista 'Internacional Living' considera mesmo que o Equador é um dos últimos tesouros secretos do continente americano. Feitas as contas, para viver uma reforma tranquila neste país são necessários 17 mil dólares por ano.

Índice dos melhores países do mundo para gozar a sua reforma

Posição País Classificação
1 Equador 79
2 Mexico 78
3 Panamá 77
4 Uruguai 75
5 Itália 73
6 França 72
7 Brasil 71
8 Argentina 71
9 Costa Rica 70
10 Austrália 70
20 Portugal 65

Fonte: Internacional Living

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A globalização e o homem




A globalização e o homem

Parece interessante encontrar num qualquer supermercado num qualquer ponto do globo um produto há poucos anos inimaginável, ou porque fora de época, ou porque oriundo do outro lado do mundo. Agora, tudo se pode comprar. Democraticamente expostos em lugares de fácil acesso e a preços competitivos, tudo facilmente nos chega às mãos.

Justifica-se esse facilitado acesso a produtos de todos os cantos do mundo com a globalização, esse fenómeno que efectivamente parece ter diminuído o tamanho do mundo, e aproximado coisas e gentes.

Os segredos, as coisas guardadas de cada um, os exclusivos, parecem estar condenados tal a velocidade em que tudo gira, e o modo com que tudo se desloca, parecendo que a magia tomou conta do nosso pequeno planeta, tornando o homem dono, senhor e conhecedor de tudo.

Esperava-se, também, que com essas facilitadas e quase livres circulações de pessoas e bens, de capitais, de conhecimentos e saberes, as colossais diferenças que o mundo sustentava entre os países mais ricos e os mais pobres e afinal, entre as pessoas dos países ditos desenvolvidos e aquelas que nasceram num mundo ainda à procura do desenvolvimento, se viessem a atenuar de modo expressivo. Tornando tudo, um pouco mais igual, o que quer dizer de outro modo, mais justo, e mais humano.

Contra a bondade de milhentas ideias luminosas de homens que dirigem o nosso tempo e as nossas economias, os pobres parecem cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. Consideração que tanto se aplica a gentes como a países. Todos parecemos mais próximos, mas infelizmente, nesses olhares que trocamos é possível perceber mais facilmente a desgraça do nosso vizinho, ou a opulência de um do outro lado, ou deste, ou daquele.

Enquanto o mundo acelerou a vertiginosa velocidade em tudo o que dizia respeito a invasão de coisas e produtos, e movimento de pessoas e capitais, o desenvolvimento, a agressividade produtiva, transformadora e comercial com proteccionismos de uns quantos que se souberam defender com encapotadas medidas, e a incapacidade de outros, reduzidos a meras promessas de evolução, num marasmo sem rumo, determinaram o aumento do desequilíbrio existente entre nações, e afinal, entre os seus naturais.

Deste modo, fracassou um dos mais importantes objectivos que norteavam, ou deviam ter norteado, a globalização, a existência de um mercado de todos, onde se defende, em nome de um progresso concertado e sem donos, vantagens a todos os intervenientes, e com ela, um desenvolvimento e um progresso geral.

Em vez disso, as pequenas nações, cada vez mais endividadas, são abandonadas à sua sorte, sem meios objectivos para encetar a via do desenvolvimento, apenas se tornando parceiras, em processos que se desejavam harmoniosos, mas onde lhes cabe o papel de receber no seu território o que os outros recusam e o de fornecer mão de obra a baixíssimos custos, em locais inadequados, sem quaisquer condições de higiene ou segurança, com ausência de efectivas regras de defesa dos que trabalham, sem direitos nem protecção.

Tudo isto, enquanto as nações mais ricas, continuam a alargar os seus processos produtivos e transformadores aos que lhes servem os interesses, buscando longe custos mais vantajosos, e a permissividade de governos corruptos ou subservientes, aumentando continuadamente as suas influencias, poder, e riqueza.

Se o mundo não deixa de ser, com efeito, um gigantesco mercado sem fronteiras, os homens e os países, continuam separados, condenados a existências desiguais, e a lutas injustas e desproporcionadas para sobreviver.

Pelo que, o processo de globalização existente, não pode servir de bandeira nem orgulhar os diversos actores nela envolvidos, sendo apenas e tão só, uma pequena parte realizada, e onde se denunciam os interesses menos válidos da natureza humana, envoltos em lutas por influencias, dinheiro e poder, esquecendo o homem, e o direito inalienável que lhe assiste a uma existência condigna num mundo que obrigatoriamente terá de ser para todos. Um dia…






sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Que país?... tudo ganha, tudo segue alegre, ...

Paulatinamente decorreram as eleições legislativas neste quimérico reino à beira mar plantado. Tudo para contento de todos, tudo para ver gente simples, feliz, sem lágrimas. Não existem, para nosso contentamento e vaidade, muitos países como o nosso. Viçoso, janota, hilariante, folgazão, e muitos outros adjectivos se poderiam, sem qualquer risco, aplicar.
O partido socialista obteve uma vitória extraordinária, utilizando aqui, nesta definição de sucesso apenas, as palavras sábias, do seu líder em noite de festejos e alegrias.
Em seguida aparece o partido social-democrata que apesar de não ter atingido os objectivos a que se propôs conseguiu ajudar a retirar a maioria absoluta ao partido do engenheiro Sócrates.
Os democratas cristãos venceram mais uma vez as sondagens que o perseguem teimosamente apregoando um desaparecimento a prazo, e coloca-se, para espanto deste mundo e do outro, em terceiro lugar, chegando e ultrapassando mesmo os dois dígitos, numa percentagem de milagrosa explosão.
Os vermelhuscos modernos do bloco de esquerda rejubilaram de gozo e satisfação ao constatarem, sem dúvidas nem erros, que cresceram expressivamente e que, como publicamente se tinham proposto alcançar, retiraram a maioria absoluta aos socialistas.
Os comunistas cresceram, pouco é bem verdade, mas fizeram-no de tal modo, seguro e claro, que o seu secretário geral afirmou que aumentavam mais uma vez a sua influência e implantação, bem como, ajudaram, de modo objectivo, a retirar a maioria existente, que sempre é coisa que resvala em tirania, obtendo, em conformidade uma vitória assinalável.
A abstenção chegou a onde nunca se tinha visto, quase aos quarenta por cento, destacando-se, isolada, no primeiro lugar, e obtendo assim, a maior e mais expressiva vitória das eleições legislativas de 27 Setembro de 2009.
Só é pena não ter tido meio para expressar essa satisfação, entre todos os outros, que felizes ganharam inequivocamente com o sufrágio. E mais pena ainda, não poderem deixar de forma inequívoca, e de modo evidente e prático, à vista de todos, o resultado do seu sucesso, garantindo quase metade dos lugares no hemiciclo de São Bento, vazios, sem dono, entre a outra metade cedida por imprevisível espaço de tempo a alguns sortudos felizardos da nação.
Com os lugares vazios, inequivocamente ganhava o país que deste modo pouparia milhões de contos por legislatura – importante exemplo de respeito pelas famílias e empresas à beira da falência – e a asneira, que poderia ser mais encolhida, na proporção de menos bocas a apregoar fantasias.
Foram umas eleições felizes, em que toda a gente ficou satisfeita, desde os que nem se deram ao incómodo de sair de casa a votar, obtendo da sabedoria de não alinhar em delírios uma vitória clamorosa, aos que perdendo mais de meio milhão de votos e a maioria absoluta ainda esgrimem argumentos de vitória extraordinária, a todos os demais, que independentemente do resultado ou do posicionamento, sempre garantiram a retirada da arrogante maioria absoluta dos socialistas, e um crescimento com cheiro a coroa de louros.
O país está falido, não temos nem justiça nem educação, as pessoas correm sérios riscos quando deambulam nas ruas, e os assaltos e o crime violento cresce, o desemprego aumenta, as empresas fecham ou não pagam salários, teme-se o futuro, trabalha-se para garantir pobreza, não temos dinheiro, não encontramos ânimo para prosseguir, mas toda a gente cantou vitória de umas eleições em que não se encontram motivos concretos para sorrir. As vitórias, para quem as obteve, são coisinhas bem efémeras, sem história e as tragédias, mesmo ocultas na permanente comédia, só servem para servir em lume brando, e para risada geral.
Sentimos que ainda existimos, mesmo que muitos tenham a dúvida se isto é viver, e não possuindo quaisquer certezas no dia de amanhã, vamos nos arrastando hoje mesmo, aqui e agora. Sorridentes caminhamos lado a lado com a nossa própria desgraça, deleitados nas vitórias do partido como no jogo da bola do nosso clube, esperando que um outro futuro, que não este, venha tão certinho, trazer-nos um novo campeonato, como uma nova epopeia nas competições europeias, ou na divisão de honra.
É preciso resistir, pouco mais se pode pedir a quem olha. Resistir, o mais possível, enquanto o país festeja, feliz e sem inquietações, mais uma vitória de todos, mais um acto, mais um jogo, olhando já, noutro acto, noutra vida, noutra alegria, que não deixará de verificar-se, com novas eleições, que não deixarão de realizar-se.
Melhor assim, pobres mas alegres, sem caminho mas esperando. Que país…

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Viva a corrupção…

Viva a corrupção…

Medina Carreira dizia ontem num programa televisivo que não conhecia em Portugal gente importante na cadeia, ou a caminho dela, por prática de crime de corrupção. Dizia aquele economista que juntando duas ou três pessoas entendidas nestas matérias de justiça, sugerindo mesmo um magistrado que conhecia, facilmente se encontraria maneira de pôr cobro a essa chaga que atormenta o país. Deu também o exemplo do que aconteceu ao antigo ministro socialista João Cravinho, afastado para um eldorado no outro lado da Europa, para manter bem longe, da vista e do coração, as propostas que aquela individualidade apresentou para se acabar, imaginem só, com a corrupção em Portugal. O conjunto de medidas apresentadas arrepiou meio mundo, e tomou de pânico a classe política.
Cada vez é mais claro que os políticos não só se mexem bem entre os meandros da mais esmerada corrupção, como precisam dela, como de ar para respirar, tudo fazendo para mantê-la bem viva e actuante.
De tal modo a corrupção é um elixir milagroso para um punhado de gente instalada nos comandos do país, que em matéria que seguramente garantiria um punhado expressivo de votos, dada a repulsa que cada vez maior se sente entre as gentes e a promiscuidade existente entre a classe política e todo um elenco de atitudes e comportamentos adoptados entre os políticos com visíveis frutos, em tempo de campanha eleitoral ninguém fala em compadrios e corrupções, em troca de favores, em tráfico de influências, ninguém ousa tocar em assunto tão sensível, que faz claro dando ao país, minando as suas forças, diminuindo a sua capacidade de prosseguir.
O país está mal, mas é evidente que entre a legião de políticos, entre os militantes dos partidos com responsabilidades governativas e de maior representatividade, reina uma desleixo, um deixa andar, que bem comprova que anda todo um povo a reboque da falta de ética e de princípios de meia dúzia de oportunistas que vivem do tacho e de expedientes fáceis. Parece mesmo que a muitos que não conseguem vingar no meio dos imorais expedientes instalados, não choca o que acontece, o que se faz, a rotina, entristece é a inabilidade, ou a falta de conhecimentos, para fazer como os demais, e enriquecer facilmente. Não se condena o crime, apenas se fica triste da incapacidade de o cometer e, desse modo, garantir um favorecimento.
Só existe corrupção em Portugal porque os sucessivos governos, e toda essa gentalha que come do orçamento, engordam felizes no sistema. E o povo, coitado, bem, entre a espera de um favor do vizinho que subiu na vida e dirige uma repartição, ou do primo que sem saber ler nem escrever é secretário de um governador, ou do amante que garante mais um contrato na administração do estado, o povo, bem coitado, continua a votar, sem esperança, mas mantendo o regabofe, bem trágico de um país cansado, imoral, injusto e feudal. Porque meia dúzia de corruptos assaltaram o poder e vivem disso. Felizes. Prósperos.
O povo, continua a votar, a cumprimentar quem lhe estende a mão, nas alegrias farsantes das campanhas eleitorais de rua, a fingir, a sorrir, quem sabe se um dia não vamos precisar do doutor, ou do deputado, ou do filho de A ou de B. Mais vale sorrir, curvar a cabeça, dizer que sim, ou mesmo um aplauso, – cá por dentro fazemos um manguito – quem sabe se com essa simpatia, não se garante amanhã, um pequeno favor.
Afinal tudo isto á bem pouco, e em velocidade imensa para minguar, bem melhor é fazer que sim, que se é, deste, e de aqui a pouco se necessário do outro, e de toda a agente. O que é preciso é entrar no carrossel, e viajar com música, subindo sempre, preferivelmente, cómodo e tranquilo. Viva a corrupção.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Não vou votar...



Ouvi mais ou menos com atenção os debates dos líderes dos principais partidos políticos portugueses, por este tempo de começo de campanha eleitoral para as legislativas portuguesas.
Dificilmente equacionarei a hipótese de sair de casa a votar. É, uma perca de tempo. E uma maçada.
Teria de convencer-me da utilidade de participar no acto eleitoral para o fazer e, pelas razões que passo a expor, estou convencido da inutilidade total. Senão vejamos;
- No meu círculo eleitoral são eleitos dois deputados, e não havendo, como previsível, uma revolução sem precedentes e inimaginável, será uma divisão, um para cada lado, entre os dois partidos maiores. O PS e o PSD, a fome e a vontade de comer, os que nos prometem o mesmo de sempre, pouco e mau, não fora a conversa fiada. Os que enganam e os que enganaram, os que estão hoje e os que estiveram ontem.
- Qualquer voto que pudesse colocar na urna, em sentido de um qualquer outro partido, morre aí, num número sem qualquer valor, a não ser, eventualmente, num número final de votantes naquele partido ou movimento e numa percentagem perdida entre milhentas que naquele dia andam nas bocas do mundo.
Não servindo de nada o meu voto, por não ser colocado num dos dois partidos vencedores antecipados, não vejo qualquer serventia, ao acto masoquista de intervir numa rotineira acção que, escudando-se na responsabilização dos cidadãos em participar nas decisões que poderão afectar a governação do país, não atribui ao meu voto qualquer valor, remetendo-o, e tão só, para um género de listagem estatística, tipo resultado de uma qualquer partida desportiva, ou concurso televisivo.
Sendo que os dois maiores partidos são os quase únicos responsáveis pela tragédia lusa, não esquecendo de meter no saco a legião de cabecitas pensadoras que os têm elegido – não se deve esquecer que cada povo tem o governo que merece, no caso que escolhe – e, que os outros grupos de ideias organizadas politicamente, não convencem de modo a ser alternativa, muito menos no meu círculo eleitoral, onde concorrerem ou não, é só questão de estar presente, efectivamente não colhe aqui qualquer dever de escolha, porque simplesmente ela não existe.
Creio que a criação de um círculo nacional já remeteria para o mesmo saco todos os votos de todos os círculos, tornando úteis as decisões subscritas através da cruzinha, e dando, deste modo, uma resposta concreta, objectiva, mais real, a todos os votos colocados em qualquer lugar. Mesmo daqueles lugares, onde o número de pessoas, com o método tradicional, por ser tão pouco expressivo, se encontra enfermo da submissão, da tirania, de um ou outro, esquecendo os demais. Deste modo, poderia, pensar-se numa mais efectiva proporcionalidade que afinal mais não é que o respeito rigoroso pelas opiniões do universo de cidadãos.
Ouvi, sem grande ânimo os debates e mais debates. Quem mal fez não consegue fazer um “mea culpa”, não tem a humildade para dizer que errou e que deve emendar-se o erro, dando a mão à palmatória, e o que nada fez, com ar de uma inocência que já não convence ninguém – ainda há pouco tempo fazia igual ou pior daquela que está na governação – esgrime argumentos deitando abaixo o seu opositor, e tentando convencer o Zé povinho, que teria feito mundos e fundos, e tudo andaria bem, se por ali estivesse.
É um desconsolo ouvir esta gente. Nada fizeram de mal e o país caminha para uma santa desgraça sem qualquer hipótese de mudar de caminho, mas vão fazer bem, sem limites e sem fim, se o povo – que tudo sabe agora – reconhecer a sua mensagem e o premiar com a sua escolha.
Vamos continuar nesta tragédia, bendita, perpétua, vitalícia, de enterrar o futuro, de desmoralizar quem tem vontade de fazer alguma coisa, de nos mantermos apenas à tona da água, ao sabor das correntes, sem rumo, à espera de um qualquer milagre que nos levante o olhar quando caminhamos pelas ruas, que nos faça sorrir ao olhar o nosso vizinho pela manhã, que nos leve a crer que estamos num mundo de elite, por direito próprio e por tudo o que fazemos.
Daqui a uns anos, possivelmente bem poucos, voltaremos a ouvir mais debates, e a votar, e a caminhar, à deriva, como de costume, sem energias e sem esperança.
Votar, nestas condições parece-me, mais que um aceitar do pandemónio, um desistir, acomodando-se a um existir sem qualquer vida. Sem alegria. Sem horizontes. Votar, parece um dizer que sim, quando toda a nossa alma vai perdendo entusiasmo, e o nosso corpo recusa esforço, por ter deixado de acreditar.
Não votar, parece-me, é estar ali, nos que não pactuam com a farsa, não aceitam o caminho que tudo levou, que desejam participar, sem dúvida, quando o jogo tiver contornos sérios, e não de batota, como hoje sucede.
Por tudo isso, vou manter-me, atento, mas não sairei de casa a votar. E, pelo menos tenho sentido uma coisa, em bom rigor, desde que deixei de votar, mais nenhum partido político me decepcionou, nem mais nenhum político me enganou. É isso, já não me enganam ,não voto. Enquanto sentir essa vontade. E a bem da minha consciência.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Que anjo...


A política é uma comédia sem paralelo. Ontem, depois do jantar, sentei-me tranquilo a ver a entrevista à RTP1 do primeiro-ministro de Portugal. Ar inocente, angelical mesmo, o senhor Sócrates tentou com voz serena, sem sobressaltos, explicar que ousou fazer tudo, o possível e o impossível, para melhorar Portugal, que, na sua opinião, não tem nada a ver com o país que encontrou quando há quatro anos começou na governação. Melhorou o país, muito se fez, e confia que os portugueses não deixarão de reconhecer tudo o que se tem feito. Mesmo em relação à crise, que em todo o mundo criou amargos de boca em empresas e nos povos, não deixou de salientar que, ao contrário do que muitos velhos do Restelo apregoavam, encontrou o seu fim no nosso país muito à frente de outras economias que ainda sentem aqueles nefastos efeitos. Aceitou que teve momentos de firmeza, que alguns confundem, sem que se justifique, com teimosia, e eventualmente terá sido incompreendido por alguns corpos profissionais, como ocorreu com os professores.

Mas promete, o senhor Sócrates promete, depois de quatro anos em que não deu quaisquer ouvidos a uma classe profissional que levou dias e dias protestando com todos os meios legítimos e possíveis de que dispunham, promete agora, que se ganhar as próximas eleições tudo vai fazer para voltar a conquistar a confiança daqueles profissionais.

Que anjo…

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Com crise e sem qualquer classe




Falta de classe

O engenheiro Sócrates perdeu a oportunidade de ser legitimamente considerado o melhor governante de Portugal depois do 25 de Abril de 1974. Poderia ter sido o primeiro ministro mais marcante positivamente falando do Portugal democrático. Teve coragem, trabalhou, fez, defrontou-se com as anquilosadas forças que sempre se revelam contra qualquer intenção simples de reformar, enfrentou a maior crise que fustigou o mundo nos últimos anos, mexeu e remexeu em muito que necessitava ser ser mexido, fez muito mais que qualquer outro antes dele, enfrentou importantes grupos e corporações, goste-se ou não dele, tem que se reconhecer que iniciou um caminho, não desistiu, fez obra. Todavia, corre o risco, será uma ironia da nossa história actual, de sair pela porta dos fundos, e de perder uma eleição para a governação do país, a favor de uma candidata a primeira ministra que em condições normais nunca governaria Portugal, por possuir uma imagem pública demasiado pesada e de outros tempos, e por passado em governos anteriores onde deixou marcas de pouca flexibilidade e sensibilidade, apresentando uma imagem de muita dureza e teimosia.

A culpa é toda dele. Sócrates foi longe de mais. Foi prepotente no trato, desafiou desabridamente demasiada gente. Foi inflexível e penalizou sem a menor sensibilidade uma quantidade de pessoas. Foi mais longe o engenheiro socialista, e enquanto arrogantemente defendia as suas políticas, não sem um sorriso hipócrita de quem tudo sabe e a quem todos têm de se submeter, ao mesmo tempo, apregoava trucidar gente, não desviar um milímetro do seu caminho, doesse a quem doer, tivesse ou não razão.

Estragou, como um menino de birras impaciente e mal educado, toda uma labuta que lhe chegou a granjear elogios das mais variadas instancias, nacionais e estrangeiras, ao levar, efectivamente, longe de mais, a sua teimosia, a sua inflexibilidade, o seu ataque a quem se lhe tentava opor, a sua arrogância.

Fez um ataque como nunca se tinha visto em Portugal aos funcionários públicos, que praticamente aniquilou por decreto, tendo, unilateralmente, alterado o seu tipo de vínculo com o estado, destruído as suas expectativas de carreiras, aumentado o seu tempo de trabalho para a reforma ao mesmo tempo que se diminuía o seu montante, isto, sem respeitar os direitos que muitos detinham por uma vida ao serviço da coisa pública e que de um momento para o outro se acharam, com o futuro virado do avesso, sem expectativas, e desrespeitados. Não ocultou a vontade de despedir a todo o custo, ignorando que seria mais sério deixar sair quem uma vida dedicou ao trabalho no Estado, que criar mecanismos de duvidosa legalidade para mais tarde lhes pregar um pontapé no traseiro.

Quando apostou na educação, fez o maior ataque e achincalhamento possível à classe dos professores, tornando-os pior que coisa nenhuma, sem qualquer valor, e desclassificados na praça pública. O povo assistiu atónito a professores impedidos de se reformar com cancro na língua, e outros casos semelhantes. Contra tudo e contra todos, desprezando um expressivo descontentamento que se manifestava como nunca se vira, um pouco por todo o lado, o ataque aos professores fez-se de todas as maneiras e sem qualquer respeito. Era malhar até poder; impor sistemas de classificação de serviço de duvidoso efeito e de uma complexidade e burocracia impensável; impor a destruição do sistema de carreiras trocando-o por um outro que não foi aceite por ninguém, foi asfixiar os professores horas e horas nas escolas, envolvidos em tarefas de todo o tipo; foi o confronto, excessivo, arrastado, mais vale partir que torcer, até onde desse.

Tenho para mim que um pouco de bom senso, que um pouco de humildade, que uma dose certa de diálogo, teria apaziguado a revolta nos professores, teria consolidado as reformas no sector, e teria galvanizado toda uma classe para um projecto da maior importância para o país que é ensinar e educar.

Igualmente penso que poderia ter-se evitado a destruição do “funcionário público” impondo-lhe, à força, um novo tipo de contrato unilateralmente e de duvidosa constitucionalidade, e deixando sobre a cabeça de tanta gente, a ameaça de um futuro sem qualquer segurança, e um sistema de progressões praticamente para meia dúzia de afilhados e escolhidos. Destruiu-se todo um sistema, que poderia necessitar de reformas, mas não de ser trucidado, deixando, curiosamente, como antes, os eleitos políticos, a servir sem qualquer exigência prática, fora do sistema que se queria moralizador das classificações, ou seja, do mérito como alavanca de progresso.

Esqueceu-se, por inconfessáveis interesses, a luta contra a corrupção e o compadrio que mina o país. Esquecem-se as legitimas expectativas e justos anseios de muitos jovens portugueses que desejavam ser médicos, num país onde, inexplicavelmente, não produzimos os quadros médicos que necessitamos, e depois de barrarmos o acesso aos nossos jovens vamos recrutar médicos de outros países e outras línguas.

A insegurança nas ruas um pouco por todo o país, e nos campos entre a gente mais idosa nunca foi tanta. A gente grada continua em estado de excepção, ziguezagueando com os tribunais e os códigos de leis, aparecendo nos telejornais, protegidas por nomes sonantes do direito, enquanto a arraia miúda foge da justiça como o diabo foge da cruz a sete pés. Condenam-se os pequenos por dá cá aquela palha, e conhece-se tanto figurão que se passeia feliz enquanto o respeito e a civilização exigiria que estivesse dentro. Os agricultores não têm onde colocar os produtos e empobrecem, ao mesmo tempo que se tem conhecimento público que o ministro da agricultura não aproveitou fundos comunitários que se destinavam ao melhoramento da nossa agricultura.

Fez-se muito, ignorá-lo não parece sério. Mas o que não se fez e que poderia facilmente ter sido feito, e todos os excessos que se utilizaram provocando revoltas injustificadas em muitos milhares de portugueses, acabaram por encher de sombras um governo que poderia brilhar. Teve tudo para isso. Infelizmente, por falta de classe, só nos espera a manutenção na sombra, por muitos anos - já estamos habituados a uma monótona e triste falta de inspiração luminosa - esperando ainda, esse Sebastião, que numa manhã de nevoeiro não deixará de vir governar este povo órfão. Tardará ainda esse dia, e até lá, muitas sombras, como estas por que passámos, não deixarão de tirar sorrisos aos portugueses. Nem de lhes dificultar o futuro.

Que país… onde, ou não se faz, ou quando se faz, melhor se nada se tivesse feito. Onde se perpétua a falta de classe, a falta de cultura e de educação, e onde, a arrogância, a prepotência, a teimosia, ainda são apanágio de muitos sequiosos de se afirmar. De outro modo, já se vê, manter-se-iam ignorados. Que país, que falta de classe.